fevereiro 12, 2017

DIÁRIO DE BORDO: 11/02/2017

fevereiro 12, 2017
   Acordamos às 9:00. Tomamos café da manhã. Organizamos a casa e separamos os elementos que faltavam para Pinóquio. Metade se dividiu em ir até o shopping montar o cenário e outra metade se destinou à limpeza da casa e do teatro para receber os alunos. Nossos amigos argentinos prepararam macarronada para o almoço. Tudo passou muito rápido. Logo eram 14:00 e as crianças chegavam para a aula de teatro. Começou. Se alongaram e partiram para um aquecimento intenso. Pulos, polichinelos e flexões. Se apresentaram um ao outro com nome, idade e comida preferida. Sempre tem a quem se apresentar. Andaram pelo espaço percebendo a si próprio, o outro e o coletivo. Sentaram em roda e inventaram personagens que ainda não existiam. Hoje foram apresentados ao mundo Pudim, Vaca Mimosa, Esquilo Taveira, Sereia Boa, Sereia Má, Mulher Super Poderosa, A Princesa Que Não Sabia Ler, Lobisomem Cospidora de Fogo, Super Fralda e o Super Cueca. Novamente andaram pelo espaço, dessa vez buscando o corpo e a voz desse personagem. Um por um entrou em cena e foi questionado. O personagem foi sendo criado a partir das perguntas da plateia sobre quem ele era, o que ele comia, onde morava, quem ele amou, etc. Histórias formadas, chegou a hora de criar uma história que contasse o encontro de todos os personagens. Criaram. Todos na coxia! Luz! Apresentaram. Sentaram e conversaram sobre as dificuldades. "Não deu para entender nada" foi a primeira resposta. Toi Toi Toi. 16:00. Aula da segunda turma de teatro para crianças no sábado. Quatro alunos novos. Também passaram pelo processo de construção de personagem. Criaram os personagens Gato Preguiçoso, Nunca, Não Sei, Terceira Irmã da Luna, Adolescente Louca, Cientista, Menina Gigante de Lego, Menina Invisível, Índio Protetor das Terras, Japonesa, etc. Fizeram o encontro dos personagens separados em dois grupos e apresentaram. Apontaram dificuldades em criar as falas, na timidez, dizer mais sim. A palavra de ordem no teatro é "sim". Mais um Toi Toi Toi. Fim da aula. Matrículas feitas.

   Acabadas as aulas, fomos Samuel, Yasmim, Febraro, Roberto e Daniel para o shopping. Ligia, Fernando, João, Gabriel e Kelly nos esperavam. Fizemos alterações no cenário. Retiramos as bicicletas, acrescentamos guarda-chuvas, personalizamos o leque. Palco arrumado. Fomos comer. Nos refastelamos em sanduíches. Todos estávamos cansados e com muita fome. Todo cansaço vale a pena. Voltamos para casa. Fernando e Ligia arrumaram o figurino de Berinjela, palhaço de Gabriel no Bagacinho. Iniciamos nossa primeira hora de descanso do dia. Já é tarde. Passamos do horário comercial. O que te conto é cortesia.

   Dia cheio. Direto. Roberto voltou a aparecer por aqui apenas nos finais de semana devido ao trabalho. Voltamos a notar o quanto estamos diferentes de um final de semana para outro. Ele volta e o atualizamos de uma vida. Temos passado bastante tempo com argentinos, estamos brincando com o sotaque, Samuel ralou o braço na escada, já temos novas piadas, o cenário está mudado, os cabelos estão cortados, a casa tem novos tapetes. A vida é direta. E mutante. E segue. Somos todos mutantes. Metamorfoses ambulantes. E seguimos.

11/02/2017.

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E amanhã, às 15:30 da tarde, a Turma do Bagacinho volta ao Shopping Bosque dos Ipês contando a história de Pinóquio! Não perca! Entrada gratuita.

fevereiro 11, 2017

DIÁRIO DE BORDO: 10/02/2017

fevereiro 11, 2017
   Acordamos por volta das 9:00. Tomamos um café da manhã coletivo. Nós e o trio de argentinos na mesa da sala. Às 11:00, todos saímos para o ato do resolvimento. Ligia e Gabriel, acompanhados de João e Fernando, foram resolver os problemas de seus óculos. Samuel e Febraro foram resolver suas matrículas no colégio. Resolvemos o que pudemos e voltamos. Almoço coletivo. Às 15:00. Terminadas as batatas doces e os bifes, nos organizamos para o ensaio de Pinóquio, que apresentaremos no Shopping Bosque dos Ipês neste domingo às 15:30. Passamos o texto, trabalhamos a palavra e ensaiamos as músicas. Ensaio longo e trabalhoso. Já repetimos a peça algumas vezes e o trabalho continua necessário. Os ensaios são aulas. Começamos a organização da casa para receber os alunos. Limpamos o chão e arrumamos a bandeja de café.

   19:00. Primeira aula da nova turma adulta de teatro. Experimentamos a conexão. Se conectar com o espaço e com o outro. De olhos fechados, abertos, usando os planos, pensando em outras vidas, no nascimento e na morte. Fomos árvores. Invadimos a bolha do outro. Sempre como cientistas. Ciência é uma palavra que usamos muito. A ciência do ator está em estudar que parte do seu pé pisa primeiro no chão, como você reage ao esbarrar no outro, como você respira, etc. Nos dividimos em duplas e conversamos. Logo chegou a hora de subir ao palco e um apresentar o que ouviu do outro. Ainda estudando. Se perguntando e se entendendo. Teve choro e teve riso. Um "Merda!" bem grande para encerrar. Houveram matrículas. 

   22:00. Saímos da aula e nossos amigos argentinos estavam preparando tacos para o jantar. Nossa família está ficando internacional. A comida estava ótima e a conversa, engraçada. Usamos a frase "Vou fazer meu aniversário aqui" para indicar o quanto gostamos. Moramos aqui. Ligia e João cortaram os cabelos um do outro. Criamos novos elementos para o cenário de Bagacinho. Os músicos argentinos e os do Grupo Casa estão conversando e tocando. Estamos escrevendo. Uma parte, organizando a casa. Alguns se despedindo. É assim que é.

   Hoje no ensaio, lembramos que nossa pausa na peça seria um pãozinho com café mas uma semana antes foi alterada para a Hora do Tereré, que continua até hoje. As coisas se transformam. Hoje nossa casa passou por transformações. Dos alunos, das panelas e dos refletores. Há 03 anos temos recebido e passado por transformações. A música boa toca na sala. Da cozinha, alguém se junta. Os desafinados observam e elogiam com os olhos. Nossos olhares são cúmplices porque somos cúmplices. O teatro é um duelo apaixonado. E vamos duelar!


10/02/2017.


fevereiro 10, 2017

DIÁRIO DE BORDO: 09/02/2017

fevereiro 10, 2017
   Acordamos todos por volta das 8:00. Arrumamos a mesa da sala para um grande café da manhã. Recebemos o trio de músicos argentinos e o professor de violão de Fernando e Yasmim. Cada um teve uma hora de aula. Os músicos argentinos passaram a manhã conosco conversando sobre música. Mostraram seu trabalho. Ligia organizou um projeto de espetáculos e oficinas para outra cidade. Fernando fez o almoço. Também aconteceu na sala. Tapiocas. Na mesa do almoço, Ligia contou uma ideia incrível que teve. Embarcamos. Aguardem. Limpamos o teatro e a casa para receber os alunos. Ligia continuou trabalhando no projeto. Kelly trabalhou nas planilhas financeiras. Samuel e Febraro trabalharam na dramaturgia de seus textos para a nova etapa do festival Processo em Cena.

   17:30. Aula de teatro para crianças de 2 a 4 anos. Dez estavam marcadas para a aula experimental. Apareceram quatorze. Se alongaram e se aqueceram pelo espaço. Andavam, congelavam e mexiam apenas uma parte do corpo. Andavam e produziam um som. Um por um apresentou o som e os outros repetiam. Fizeram três grupos e escolheram seus personagens. Montaram a história e chegou a hora de experimentar a cena. Todos na coxia. Apresentaram histórias de bruxos, princesas, foguetes, gatos e cavaleiros. Deram as mãos numa roda e foram repassando toques. Fizeram o primeiro Toi Toi Toi da vida. Fim da aula.

   19:30. Aula da turma adulta. Andamos no espaço como cientistas do próprio corpo, experimentando de olhos fechados e abertos, os corpos juntos. Andamos pelo espaço como cientistas da palavra. Nos exercitamos falando nossos textos e respirando com o diafragma. Sem parar. Ficamos por um tempo montando uma partitura corporal cansativa enquanto o texto era falado usando respiração diafragmal e modulação de voz. Todos na coxia. Um por um apresentou as descobertas. Hora de limpar as partituras. Treinamos novamente e repetimos. Teatro é arte da repetição. E dói. Doeu. Fim da aula.

   Limpamos o teatro. Decidimos jantar sopa. A ideia logo foi descartada e nos aprontamos para comer fora. Conhecemos o furgão dos músicos argentinos e achamos incrível. Queremos um. Fomos numa hamburgueria que abriu recentemente perto de casa. Ficamos com medo de nos arrependermos. Não nos arrependemos. Tudo era muito bom e gostoso. A música era agradável. Parecia Tim Maia mas era americano. Usamos a famosa frase "Vou fazer meu aniversário aqui". Coisa séria. Ligia só não entendeu o hamburguer vegano de grãos que era frito. Pagamos e voltamos para casa. Fizemos os planos de trabalho para amanhã. Iniciamos nossa primeira hora de descanso do dia. Estamos nos aprontando para dormir. 

   Os diafragmas terminam o dia cansados. O Grupo Casa tem o prazer de estreitar diafragmas e relações. Amanhã tem mais. Nossa agenda já tem nove coisas para amanhã. As agendas são teoria. Na prática, quatorze crianças fizeram aula de teatro pela primeira vez. Os cachorros sujaram a casa toda de terra. Os alunos da turma adulta saíram molhados de suor. Viva a prática. Teatro é prática. É a coisa. 


09/02/2017.


fevereiro 09, 2017

DIÁRIO DE BORDO: 08/02/2017

fevereiro 09, 2017
 Todos acordamos por volta das 9:30. Correndo contra o tempo. Dia cheio. Ligia e Samuel foram pegar os resultados dos exames feitos recentemente. Tudo certo. Febraro e Fernando organizaram o que seria levado ao Arena Bosque. João estava na academia. Gabriel na faculdade. Ligia e Samuel voltaram. Ligia e Fernando seguiram para o Shopping Bosque dos Ipês para uma reunião sobre nossas apresentações deste mês. Os meninos seguiram limpando a casa e o teatro para receber todas as pessoas que passariam por aqui para as aulas. Turma de crianças e turma adulta. Ligia nos orientou a partir para o shopping no máximo às 13:30. Tínhamos uma entrevista ao vivo com a Blink 102. João terminou o almoço às 13:20. Recebemos uma mulher, do trio de argentinos que está estacionado em nossa esquina, para o almoço. Pedimos um Uber e corremos para o shopping. Yasmim, Febraro, Samuel e João. Encontramos Kelly lá. Uma parte se destinou a separar o cenário enquanto outra limpava o palco e o camarim. A equipe da Blink 102 transmitiu ao vivo em seu Facebook nossa montagem do cenário. Demos uma pequena entrevista. Continuamos nossa missão de arrumar o teatro. Separamos o que usaríamos em cada peça do mês. A deste domingo é Pinóquio. Limpamos e adicionamos carpetes em nosso camarim. Recolocamos os espelhos e as luzes. Estamos de volta. Samuel, Febraro, Yasmim e João voltaram para casa enquanto Ligia e Fernando ficaram para resolver as questões que os diretores de companhia geralmente resolvem. 

   17:30. Febraro e Samuel iniciaram a aula de teatro para crianças. Tivemos duas alunas novas. Samuel descobriu que trouxe a chave do carro sem querer. Pediu para Veridiana levar ao shopping antes que fosse tarde. Resolvido. Não morreu. De volta à aula, as crianças se aqueceram, andaram pelo espaço, treinaram de olhos fechados a percepção do outro na sala. Criaram seus personagens. Sentaram e escreveram suas histórias. Em seguida, andaram pelo espaço fazendo descobertas de corpo, voz e frases. Chegou a hora de apresentar as criações. Nossa aluna que havia se incomodado em ser um sapo na aula anterior, decidiu tranquilamente ser um carro invisível nesta aula. Tivemos uma dançarina de hip-hop, duas bailarinas, um homem causador de guerras, uma caçadora de trolls, uma menina que vê os personagens dos livros que lê. Cada um era submetido à perguntas da plateia e respondia sem sair do personagem. Muitas pérolas saíram. "Quando eu morrer, conte-me histórias" foi uma. Depois, criaram uma peça com o encontro de todos os personagens. Fizemos tanta coisa que o tempo apertou. Não deu tempo de repetir. Fizemos um Toi Toi Toi. Fim. Daniel anotou tudo.

   19:30. Começou a aula da turma adulta. Fernando deu a aula enquanto Ligia e Kelly se encarregaram das planilhas financeiras e dos alunos. Foi uma aula de respiração. Trabalharam a respiração diafragmal e a modulação de voz. Passaram a aula experimentando e apresentaram os resultados no final. Merda! Fim da aula. Aula séria. Houve quem chorou. Teatro dói. Os alunos foram embora, mas não antes de Ligia avisar para trazerem a sinopse de seus personagens na próxima aula. Febraro e Samuel tentaram fazer as suas. Penaram.

   22:00. A casa fechou para o público. Ligia e Kelly ainda trabalhavam nas finanças. Conversamos sobre as aulas do dia. Fernando tentou encerrar nosso expediente, sem sucesso. Esquentamos a comida e jantamos. O trio de músicos argentinos nos presenteou com um incenso. Combinamos um jantar amanhã. Aos poucos, fomos subindo para descansar. Nos encerramos em nossos quartos.

   O diário de bordo de hoje entra quieto e sai calado. Não tem considerações finais a fazer além de: ufa. Trabalhamos bastante. É madrugada de fazer textos. Os processos estão de volta. Não há tempo. Boa noite e tenho dito.

08/02/2017.


fevereiro 08, 2017

DIÁRIO DE BORDO: 07/02/2017

fevereiro 08, 2017
   Samuel e Febraro acordaram às 9:00 na casa da tia de Ligia, que foi a primeira do dia a cantar parabéns pelo aniversário de Samuel com um bolo de cenoura com cobertura de chocolate. Os meninos foram andar à cavalo na fazenda em que a prima de Ligia trabalha. Febraro dominou rápido. Samuel esqueceu de controlar o cavalo, que foi em frente à uma jabuticabeira. Se estrepou nos galhos mas passou bem. Cada Dom Quixote tem seu moinho. Voltaram para casa e encontraram Ligia e Fernando acordados. Almoçamos. Conversamos bastante com a família. Partimos mais tarde do que o combinado: às 14:30. O carregador de nosso notebook estragou e não pudemos consertar nossa playlist de músicas. Ligia nos contou sobre Ibsen, o viking da dramaturgia, a partir da leitura de "Mestres do Teatro II" de John Gassner. Sabe-se que na época, por conta dos textos de Ibsen, as mulheres se inspiravam a largar maridos, fazer revoluções e se empoderarem. É o entendimento de Ibsen de retratar a maldade feminina ao invés da pureza feminina. O ponto em comum de suas personagens seria a busca pela infelicidade, da própria e dos outros. Ele entende que as mulheres educam os filhos, então o futuro está na mão das mulheres. Nossas leituras continuaram. Febraro com a "A Mulher Só" de Harold Robbins e Samuel com "O Idiota" de Dostoiévski. Paramos algumas vezes em postos na estrada para fazer xixi e comer, não necessariamente nessa ordem. Nos alimentamos de salgados, refrigerantes e bolos. Míseros de nós. Planejamos voltar com nossos exercícios diários para manter o corpo firme necessário para um ator. Tivemos um problema com o pneu por conta de um buraco na estrada. Paramos em uma borracharia mas o borracheiro não estava. A borracharia do lado resolveu nosso problema. Fomos adiante. Nos perdemos. Fernando pediu informação com sotaque baiano. Se explicou dizendo que acha mais simpático que sotaque carioca. Rimos. Encontramos o caminho certo. Dormimos. Lemos. Nos desentendemos. Os acontecimentos típicos de uma aventura pela estrada. A aventura durou até às 21:40. Chegamos em casa. Em Campo Grande. Nos recebiam Gabriel, Yasmim, Kelly, Daniel e João. Com bolos, balões e cantando parabéns. Em cada balão, havia uma frase de Samuel escrita. "Vou me refastelar" e "Que seja" se destacaram. Tocaram a música do Sítio do Picapau Amarelo em alusão à Samuel ter sido fã do seriado quando criança. Comemos bolo e cachorro quente enquanto contávamos detalhes da viagem. Os presentes desceram do carro e entraram em casa. Guarda chuvas, chapéus, filtros dos sonhos, doces de leite. Colocamos nosso olho grego na porta de casa. Falamos que gostamos tanto de Pirenópolis que pensamos em montar uma casa de cultura lá, mas nos demos conta de que temos um trabalho a continuar em Campo Grande. Não faz mal. Pensamos maneiras de trazer Pirenópolis para cá. Ligia e Fernando já imaginam reformas para a casa. João contou sobre três argentinos que estão rodando o mundo num furgão fazendo música e que por acaso estão estacionados na esquina de casa. Eles queriam saber sobre a cidade e precisavam tomar banho. Os convidamos para tomar banho e comer. Conversamos. Nos contaram suas histórias e contamos a nossa. Uma delas tocou nosso teclado muito bem. 

   Ainda está acontecendo. A casa está aberta. Os sotaques argentinos falam sobre música. Sobre paixão. Sobre não fazerem por dinheiro. "A gente gosta de viajar, fazemos por amor, a gente gosta de conhecer gente". Nós também. O sotaque de Ligia resgata a história de que todos da companhia já foram alunos. Ainda bem. Fomos resgatados. "Onde cabem dez, cabem treze". O diário de bordo não acaba nem quando o dia termina. Anotei uma frase de "O Idiota" para usar caso todos já estivessem dormindo. "Nos encerramos em nossos quartos". Achei bonito. Fica pra próxima. Não vamos dormir tão cedo. Ainda bem. Finalmente nos encontramos. Nossos dias não se dividem mais em parágrafos. Estamos encontrados.

07/02/2017.


fevereiro 07, 2017

DIÁRIO DE BORDO: 06/02/2017

fevereiro 07, 2017
   Acordamos por volta das 10:00 para tomar nosso último café da manhã na pousada. Tivemos uma ideia para a boca de cena do nosso teatro de bolso a partir da decoração do lugar. Comemos com tranquilidade e começamos a arrumar as nossas malas para partir. Fizemos check-out às 12:00. Fomos comprar lembranças para quem ficou em Campo Grande. Aguardem. Terminamos as compras às 13:00. Hora de ir embora. Demos até logo para as ruas de tijolinho e as casas coloniais coloridas de Pirenópolis. Buzinamos para o teatro como despedida e saímos da cidade às 13:10. Seguimos viagem lendo nossos livros. Febraro terminou "A Náusea" de Sartre. Samuel continuou a leitura de "O Idiota" de Dostoiévski. Ligia continuou "Mestres do Teatro II" de John Gassner. Já terminou a leitura sobre Ibsen. Não sabemos em que dramaturgo ela está. Paramos para almoçar na estrada às 16:40. Empadão, pastel, pizza e suco de laranja. Compramos lembranças comestíveis para quem ficou em Campo Grande. Aguardem. Para nós, compramos doce de leite no canudo. Nos arrependemos amargamente. Não há no mundo alma mais feia que o gosto de tal doce. Seguimos adiante. Ligia consertou nossa playlist de viagem. Febraro iniciou a leitura de "A Mulher Só", livro de Harold Robbins que Ligia leu ano passado. Ligia leu um texto que Samuel e Febraro fizeram um tempo atrás. Perguntou sobre o que era. Demoraram mas definiram que era sobre um casal que estava se separando. A partir de uma conversa, achamos um ótimo título para um novo espetáculo. Aguardem. O dia resolveu nos encher os olhos. Vimos o céu mais azul do que nunca e o por do sol esteve rosa-choque. Paramos em Mineiros - GO às 21:00 para dormirmos numa tia de Ligia. Jantamos, conversamos, rimos da conversa. Passamos todas as convenções comuns que se passam ao conhecer o desconhecido. Uma família desconhecida. Divertida. O dia acabou e ainda não dormimos. O resto fica pro diário de bordo de amanhã. 

   Sobre Campo Grande, serei honesto. Hoje foi segunda, nosso dia de folga. O que se sabe sobre nossa vida profissional é que uma família passou para fazer a inscrição dos filhos na turma de teatro para crianças de 2 a 4 anos. As aulas começam na quinta. Yasmim contou nossa história. Se emocionaram. Contaram que a mãe da família escreve poesia. A mãe de Ligia também escrevia. O dia valeu pelo encontro. Sempre o encontro.

   Para fechar o dia, a título de memória, lemos em "O Idiota" sobre uma mulher que sofreu escárnio no vilarejo até morrer de tuberculose. Só as crianças a tinham amor. Quem contou a história foi o príncipe Míchkin, que carrega  o título do livro. Não concordo com o adjetivo. Só não gosto que ele tenha sentido pena da mulher. Pena é ruim. No carro, relembramos o discurso de Ligia de que a dor existe mas o lugar da felicidade precisa continuar. Soubemos também numa conversa aleatória que um boi morreu engasgado com um caroço de manga. A autópsia confirmou. O que uma coisa tem a ver com a outra, não sei. A escrita surge por necessidade. Boa noite.


06/02/2017.


fevereiro 06, 2017

DIÁRIO DE BORDO: 05/02/2017

fevereiro 06, 2017
   Acordamos por volta das 10:00 para tomar café da manhã na pousada. Ligia e Fernando acordaram antes. Samuel e Febraro depois. Fomos conhecer a cachoeira Meia Lua. Limpamos nossas energias na água. Fomos à um restaurante próximo e almoçamos filé mignon, fettuccine e carne de porco com gengibre com merecidos outros nomes elegantes. Tomamos um ótimo vinho. Voltamos à pousada. Tomamos café da tarde e aproveitamos a piscina. Ligia e Fernando discutiram uma possível peça adulta nova. Falaram sobre estudar teatro narrativo, o entendimento da grandiosidade presente nas coisas simples e montar o espetáculo pensando no espaço que temos em nosso teatro de bolso. Da necessidade de tornar nossa rotina de trabalho mais funcional, foram ao redário da pousada organizar nossa agenda. Febraro continuou sua leitura de "A Náusea" de Sartre. Todos dormimos. Chovia. Saímos para jantar mesmo assim. Fomos à uma pizzaria mediterrânea e pedimos bruschettas. O sal nos afugentou. Voltamos ao primeiro bar de jazz que fomos no nosso primeiro dia em Pirenópolis. Pedimos chás diversos, salada com queijo e manga e uma focaccia. Começamos a falar sobre poesia e palavra em tom de brincadeira. Resolvemos jogar um jogo: cada um escrevia um verso até que todos os versos virassem uma poesia só. O jogo rendeu quatro: "A chegada", "Rocha Rosa", "Meu corpo" e "Erros repetidos". Nos encantamos. Lemos em voz alta. Dividimos aqui.

A CHEGADA
As casas que vejo
E os sapos iniciam a noite!
Suas unhas verdes anunciavam uma tragédia
Os ratos dançam ao som de jazz
Nadando em mim
Enquanto isso, uma palavra brota na casca de uma árvore
A espinha do rosto borbulha com o calor da vela
É o começo do início da primavera.

ROCHA ROSA
Não me olhe sem mim
Preciso ser salva de mim
Solitários são os azeites sem função
Mas uma mulher acabou de cantar
Forte como uma rocha rosa
As cores me perseguem com suas culpas
Só não me junto às suas mãos por falta de coragem
E todos dançam ao som da Lua!

MEU CORPO
A saudade me traz a brisa de volta
Por trás do natural existem os monstros azuis aquáticos e mal agradecidos
Meu corpo, tua casa
As suas curvas fáceis
Mas eu continuo me perdendo nos castanhos maldosos de seus olhos
Me ajude a me salvar das competições
Só sei navegar com você
E os originais como cópias
Cansei de brincar.

ERROS REPETIDOS
O amarelo lá fora me enfrenta outra vez
Tenho medo dos erros repetidos
Queria falar em espanhol
A nata transbordou do bule
Sou uma acendedora de lamparinas
Irei estrelar um susto
Você ainda quer fugir comigo?
Tartarugas velhas amam
Como uma lesma no sal eu me desfaço por você
Esse jogo eu não jogo
Sua ansiedade me transforma em ti
E no fim tudo é começo.

   Tomamos mais chá e conversamos sobre nossas poesias. Fizemos ligações e conexões com as palavras do outro. Brincamos sobre criar um poeta pseudônimo e lançar um livro. Pirenópolis tem o poder de impregnar poesia. Dá vontade de mudar para cá. Vamos vender poesia, música, teatro e desenho. As potências de cada um. Voltamos para a pousada. Não nos separamos. Estamos todos deitados no mesmo quarto, rindo e escrevendo. 

   Em Campo Grande, acordaram por volta das 10:00. Organizaram a casa e a bagunça dos cachorros. Todos almoçaram com suas famílias. Retornaram ao Grupo Casa por volta das 16:00. Bibi voltou de viagem e passou para nos dar um beijo. Receberam Rodrigo Portela, diretor de teatro e amigo de Fernando que estava na cidade para dar uma oficina para uma agência de modelos e atores. Conheceu nossa casa, falou sobre teatro e prometeu voltar para nos dar uma oficina. Encontro legal. Yasmim e Gabriel pediram pizza e se refastelaram. Vão dormir.

  Vivam as chaves que giram. Pelas viagens e pelos encontros. As viagens tem a vantagem da transformação e os encontros também. Não digo "poder de transformação" simplesmente porque acho chato. La crema desbordó el vaso de agua. É assim que se diz "A nata transbordou do bule" em espanhol, segundo os tradutores virtuais. Poesia continua. O diário de bordo só não terminou com uma boa frase pois não anotamos quando ela surgiu.


05/02/2017.


fevereiro 05, 2017

DIÁRIO DE BORDO: 04/02/2017

fevereiro 05, 2017
   Febraro e Samuel acordaram às 9:00. Andaram pela cidade e procuraram a programação do teatro e do cinema local. Descobriram um filme em cartaz. Voltaram e se refastelaram no café da manhã da pousada. O café seria servido até às 11:00. Eram 10:40 e Ligia e Fernando ainda não haviam acordado. Pensaram em chamá-los mas decidiram deixar que descansassem. Decidiram errado. Ligia ficou arrasada por ter perdido o café da manhã. Fernando não ligou. Pediram dois baurus e dois sucos de laranja na recepção e ficou tudo bem. Ficamos na piscina por um tempo. Depois na sauna. Pensamos em ir às cachoeiras mas a chuva nos impediu. Fomos almoçar num dos vários restaurantes bonitos da cidade. Pedimos moqueca, um prato executivo e espaguete ao molho branco. Perguntamos ao atendente sobre o teatro na região. Ele ainda não conhecia muita coisa pois era recém chegado na cidade, mas descobrimos que ele também era ator. Voltamos ao hotel e descansamos até às 18:50. Saímos com destino ao cinema. Chegamos em frente ao Cine Pireneus às 19:00. Um cartaz colado no vidro indicava: Como Água Para Chocolate, filme mexicano de 1992, sessão às 19:30. Resolvemos aproveitar a meia hora pendente para conhecer o teatro, acoplado ao cinema. Estava fechado. A placa escrita THEATRO nos chamou atenção. Exploramos o espaço do cinema. Lindo e rústico. Tiramos fotos. Conversamos com quem chegava para a sessão. As portas se abriram e entramos. O espaço era lindo e encantador. Escrever sobre Pirenópolis é saturar a palavra lindo. Escolhemos os lugares e acompanhamos o filme. Rimos durante e choramos no final. Conhecemos o espaço que fica entre o cinema e o teatro, um palco de madeira em que ocorrem shows geralmente. Sonhamos um Bagacinho ali. Do sonho, veio a realidade de se apresentar ao rapaz responsável pelo espaço. Trocamos contato. Bisbilhotamos um casamento na igreja. Andamos por uma feira movimentada. Logo paramos numa loja de chapéus. Enxergamos figurinos. Ligia provou todos e comprou dois. Numa outra feira, compramos uma santa feita de palha de milho, para substituir a que usamos em Romeu e Julieta. Decidimos jantar a famosa pizza quadrada de Piri. Doces e salgadas. Saímos empanturrados. Passamos na farmácia e seguimos para a pousada. Nos demos boa noite e entramos nos quartos. Até presente momento, não dormimos.

   Sobre Campo Grande, soubemos o seguinte: acordaram às 10:00, limparam toda a casa e almoçaram às 12:00. Foi dia de aula das turmas infantis. Continuando nosso processo de construção de personagem. As crianças aqueceram, alongaram e andaram pelo espaço fazendo descobertas de corpo e voz para o personagem. Yasmim deu as aulas, acompanhada de Gabriel e Daniel. Os alunos apresentaram os personagens primeiramente em um monólogo e posteriormente num espetáculo com todos. Repetiram e conversaram sobre as dificuldades. Toi Toi Toi! A segunda turma teve duas alunas novas. Sortearam os personagens e acabaram experimentando todos. Muita coisa interessante surgiu. Montaram a peça a partir de um canovaccio*. Se apresentaram e depois experimentaram fazer sem o canovaccio. Sentaram e conversaram sobre o que foi difícil. A palavra "tudo" foi usada para descrever. Terminaram com Toi Toi Toi e abraço coletivo. As alunas novas se matricularam. Todos jantaram. Kelly e Daniel foram embora. Yasmim foi dormir e acordou às 21:00 com um convite de João para comer hambúrguer. Aceitou. Resolveram ir ao bloco de carnaval. Não se sabe se dormiram até o presente momento.

   Não vamos dormir. Estamos nos encontrando. Com as ruas de tijolo, os livros, os blocos de carnaval e as fraquezas. Tudo surge do encontro e a vida é agora. Boa noite.

* Canovaccio é um tipo de roteiro que indica apenas os elementos básicos de uma peça, sem entrar em muitos detalhes, contendo a descrição das situações e os personagens participantes. 


04/02/2017.


fevereiro 04, 2017

DIÁRIO DE BORDO: 03/02/2017

fevereiro 04, 2017
   Lembram que ontem dissemos que o diário de bordo não entraria de férias? É porque ainda não tínhamos chegado oficialmente à Pirenópolis. Aqui tudo é incrível, o que torna muito difícil a missão de parar tudo para escrever. Agora há pouco, Fernando nos chamou para irmos à cachoeira. Vamos. Mas compromisso é compromisso. O diário de bordo realmente não se dá ao luxo de férias. Chato. Vou contar o que aconteceu. Como acontecemos por aqui e por Campo Grande.

   Ligia, Fernando, Febraro e Samuel tomaram o café de manhã do hotel e continuaram a viagem rumo à Pirenópolis. Saímos às 11:07. Ligia leu sobre Ibsen em voz alta novamente. De Ibsen, veio a observação dos dramaturgos que eram só dramaturgos. Ibsen era responsável pelas dramaturgias de todos os espetáculos do teatro em que trabalhava. Conversamos sobre fazer "Sonhos de uma noite de verão" de Shakespeare. Pensamos onde ele cabia. Talvez no Bagacinho. Decidimos voltar com as leituras dramatizadas que costumávamos fazer antes, uma vez por mês. O livro já deu seus frutos. Que continue. Chegamos em Pirenópolis às 16:35. Logo na entrada do perímetro urbano da cidade, nos deparamos com uma escola que carregava em sua fachada a seguinte frase: "A principal meta da educação é modificar os homens para que eles sejam capazes de modificar o mundo". Bonito. A cidade é toda bonita. Casas coloniais com amarelos, azuis e vermelhos que não tem medo de colorir. Rodamos a cidade em busca de uma pousada que nos agradasse. Descobrimos que aqui existe um teatro acoplado a um cinema. Após um tempo de procura, acabamos nos hospedando na primeira pousada que tínhamos visto pela internet. Tem piscina, sauna, café da manhã e café da tarde. Nada ganha de um café da tarde. Tomamos e descansamos. À noite, saímos pela cidade. Começamos pelas feiras. De cara, compramos dois guarda-chuvas coloridos para o cenário de Bagacinho e um olho grego. Nos encantamos por uma loja de sapatos e bolsas de couro que tinha logo na entrada a frase "O artista é um ser insatisfeito com o mundo, por isso cria" esculpida na madeira. Os donos fazem até sapato de palhaço. Prometemos voltar no dia seguinte. Visitamos mais alguns lugares e paramos num restaurante de massas. As mesas eram à luz de velas. Tivemos um jantar de amor em quatro pessoas. Pedimos lasanha, filé à parmegiana e espaguete à bolonhesa. Depois, encontramos um bar que servia música e sobremesa. Era o que procurávamos. Pedimos uma torta de três chocolates e um petit gateau com sorvete. Tomamos chá. Uma velhinha passou por nós cantando "A Banda" de Chico Buarque. Nos contaminamos e seguimos cantando. Voltamos à pousada, nos demos boa noite e dormimos. 

   Em Campo Grande, o pessoal acordou às 10:00. Colocaram as roupas sujas na máquina de lavar. Almoçaram. Gabriel foi numa reunião da faculdade. Uma aluna nossa e uma ex-aluna passaram em casa para visitar e conversar. Ficaram por algumas horas. Por terem deixado o portão aberto, os cachorros fugiram. Yasmim conseguiu recuperá-los com pulso firme. Chaplin, Shakespeare e Nelson voltaram para casa e comeram o chinelo de Gabriel. Kelly continuou seu trabalho nas planilhas financeiras. Roberto chegou. João passou para pegar algumas roupas. Yasmim lavou nossos figurinos, deixando cheiroso o que estava fedido. Roberto e Gabriel decidiram curtir as férias indo a uma festa do pijama numa boate. Yasmim, como senhora que é, recusou. Foi convencida horas depois, mas os três acabaram desistindo e ficaram em casa para assistir "Orgulho e Preconceito" e chupar laranjas. Isso é o que ficamos sabendo. Suponho que dormiram. Conversamos pelo grupo do Whatsapp a noite toda, mandando fotos e vídeos um para o outro. Lemos numa fachada aqui em Pirenópolis algo sobre o encontro das pessoas. Que o encontro transforma. Nos encontramos no outro. Mesmo de longe. 


03/02/2017.

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