março 24, 2018

ÓCIOS DO OFÍCIO – A ARTE DE FAZER ARTE.

março 24, 2018
Por: Fernando Lopes Lima.


Chegou a hora, caros amigos, de dividir um pouco das reflexões que esse meu corpo insiste em produzir por necessidade própria. E hoje eu vou reagir. Pensar sobre os ócios do nosso ofício. Oh, quanto sangue nosso derramado todos os dias para produzir arte! “Minha carne é de carnaval, meu coração é igual”. Primeiro de tudo, e qualquer coisa: o que é arte? Várias são as definições de arte e todas elas de uma maneira ou de outra estão corretas; expressão da liberdade humana; criação humana de valores estéticos etc… Certamente todas essas concepções de arte têm seu sentido e valor. A arte é, por excelência, o lugar de conhecimento, feitura e expressão. Em resumo, a arte como um fazer, arte como conhecimento e arte como expressão. Vamos então destacar o teatro e ater as nossas reflexões somente a essa secular expressão artística. Então, o que é teatro? Para definir teatro, primeiro vamos à origem da palavra que vem do grego Theatrón e significa “lugar para contemplar”. Lugar para observar atentamente, para analisar. A plateia tem uma função ativa na sua própria origem, é dela o lugar de ver. O teatro é do público, com o público, para o público. Nós artistas não podemos nos esquecer jamais dessa máxima. Não é para satisfazer meu ego que faço teatro, tampouco para satisfazer o ego do público, pois não se trata de apresentar aquilo que ele quer ver e ouvir, mas é por necessidade que estamos diante nós mesmos para refletir sobre nós mesmos. O Homem diante do Homem. Portanto, todo objeto estético é um monumento histórico. O objeto teatro que está diante da plateia reflete o conjunto de artistas que se debruçaram sobre o material e a obra reflete a sociedade que está representada pelo público, que está diante de si mesmo, analisando-se. O público deve ser capacitado, capacitar-se, para ver cada vez melhor, e os artistas idem. A sociedade que não sabe ver-se é uma sociedade que fracassou. Tanto artistas quanto público estão cegos e nesse sentido não há o que se ver, e se não há o que se ver, não há teatro. O mais grave: se não há teatro a gente perde a possibilidade de construção do humano. Se paramos de construir o humano começamos, naturalmente, a nos desumanizar. Não avançamos. Nos tornamos uma sociedade de Homens desumanos. Essa humanização é a função máxima da arte do artista. E o teatro, na prática, coloca o Homem/plateia diante do Homem/artista e a força desse ato gera paixão imediata, gera ação, vibração, força, e essa força nos leva adiante. O teatro (re)inventa o humano. Por isso é uma arte libertadora, por isso é uma arte perigosa, e por isso ainda é tão combatida pelos governantes conservadores. Aqui começa uma luta extra, de uma classe que há muito vem sendo vilipendiada e que tenta construir leis mais sólidas que garantam melhores condições para o acontecimento artístico teatral. Os artistas, muitas vezes, têm de deixar seus afazeres para defenderem seu ofício e, quando a fome bate à porta, nós, artistas, acabamos por ter outros ofícios, que nos garantam o sustento e isso nos encaminha para a cegueira de todos. Quando o artista de teatro não consegue passar horas diárias trabalhando em sua matéria, o teatro, muitas vezes, se fragiliza e se afasta cada vez mais de sua função máxima de humanização. Não é fácil estar diante da matéria que se pretende transformar em obra de arte e que vai estar diante do público. O teatro, em muitas cidades brasileiras, se transformou em passatempo, atividade secundária dos artistas que, para se manterem, tem de trabalhar em outras atividades. Se você, artista, divide seu tempo com outras atividades, que tira o valor da arte como atividade principal, é, por deficiência, de uma sociedade que não compreende o valor da arte. Luto para que os artistas possam passar horas do seu dia debruçados em um processo de montagem antes de apresentá-lo ao público. Eu não faço teatro por obrigação, faço teatro por necessidade, por obrigação temos que fazer o nosso melhor, oferecer ao público um conteúdo fruto de uma experimentação séria, e isso só é possível fazer com muita dedicação, estudo e trabalho. Nesse mundo desumanizante, o artista precisa utilizar sua ferramenta para lutar contra as máquinas, contra a frivolidade, contra os desumanos que fazem trincheira e pretendem piorar o mundo. Ao público eu digo: clamem por teatro, não deixem os teatros fecharem. (Em Campo Grande/MS, o teatro do Paço está fechado há trinta anos e o Teatro Aracy Balabanian fechado há quase três anos). Aos meus amigos artistas eu digo: não se contentem com pouco, com migalhas, e não façam seus espetáculos para agradar a si próprios, busquem referências, saiam da bolha regionalista, ganhem o mundo e voltem para suas cidades com o novo misturado. O teatro é uma arte muito antiga, tudo já foi experimentado e, mesmo assim, é uma arte que se renova a cada encontro com o público, porque o público, por sua vez, se renova a cada sessão. Não se pode assistir a mesma peça duas vezes, pois você já não será o mesmo e a peça tampouco. Lembrem-se, meus amigos, aqui falo eu, e o quanto digo é problema de vocês. Beijos e até.


EU. SENDO EU.

março 24, 2018
Por: Ligia Prieto.


Eu. Sendo eu. Eu invento uma coisa atrás da outra. Em novembro do ano passado resolvi que todos do Grupo Casa deveriam escrever textos mensais para que assim pudessem se representar diante de si mesmos. Somos um grupo de teatro em formação, estaremos sempre em formação, o conhecimento de si e do mundo é uma necessidade. Dessa forma todos seguiriam e seguiram, entendendo seu próprio ofício, colocando as palavras para funcionar como forma de sustentação da existência. E assim foi. Eu. Estou atrasada. Sempre atrasada. Não escrevo desde janeiro. Peço desculpas. Por isso resolvi escrever, neste artigo, sobre os últimos meses. Ou sobre os primeiros meses do ano, tudo é uma questão de ponto de vista.

Em Janeiro estávamos de férias. Na verdade, todos estavam, menos eu. Eu estava na organização de tudo, como sempre, hotéis, dinheiros, comidas, gasolinas, dirigindo (dividindo com o Fer) uma Kombi com 9 pessoas, cenários e bagagens. Viajamos todos juntos para as férias sem férias. Fizemos 4 apresentações, foram emocionantes, tivemos o primeiro surdo na plateia, e muitas outras experiências que só existe pra quem vive o teatro.

Na volta, pararíamos em muitos lugares, mas eu não percebia que não tinha tirado as férias, não tinha percebido que não tinha parado de trabalhar nem sequer 1 minuto. É realmente difícil parar quando a gente faz o que ama, é uma existência que insiste. Na volta, quando chegamos no Rio de Janeiro, no hostel, no banco e, finalmente, quando sentei no meu restaurante japonês preferido, que há tempos não ia, tive uma leve tontura. Muita estrada talvez. Quem dirige muito em estrada sabe que é um ótimo passo para a labirintite. Ainda no caminho de volta, em SP, a mesma coisa, hostel, restaurante para um jantar delicioso, na Augusta as poucas luzes me incomodavam, e tudo girava. Tudo bem, labirintite, estrada, calor, somos muitos, comidas, organizações, cálculos. E finalmente em CG. Em cena, e a gente não para nunca. Por mim eu não parava nunca mesmo. Mas meu corpo me deu um grito “pare o mundo que eu quero descer”. Fiquei fora de cena por duas semanas seguidas. Foi uma dor. E ao mesmo tempo lindo, ver o grupo em funcionamento com outro olhar, eles cresceram, foi como uma mãe que vê o filho passar no vestibular, ou fazer seu primeiro desenho, ou.... o que quer que seja. Mas mesmo assim o mundo real tá uma grande tragédia, e eu não conseguia parar de pensar, e de elaborar fórmulas e meios de sobreviver, de viver do que amo, de mudar a mim, de mudar o mundo. Então eu pifei. Foram pelo menos 30 dias tomando remedinhos para dormir (homeopáticos, claro), voltando para a análise, e um novo/velho amor, o pilates. O diagnóstico era “ela está com um ataque de estresse, precisa parar”. 

Precisa. Necessidade. Reorganizei tudo. Fase de desmame. As roupas nas gavetas. As comidas na geladeira. As dores no peito. Os medos nas unhas. Sono. Homeopatia. Fim do anticoncepcional. Meu corpo. Minhas regras. Alimentação de tudo que sai da Terra, ou o que ainda resta dela. Respiração. E então precisamos retomar os ensaios e a montagem do espetáculo “A vida é sonho”, afinal de contas a estreia tá aí e o tempo urge. Aulas, apresentações da Turma do Bagacinho, ensaios. Primeira reunião, um ator informa sua saída do Coletivo. É difícil. É difícil entender onde termina minha individualidade e começa o coletivo. Onde termina minha vaidade e começa o teatro. Vaidade, individualidade, são palavras que não combinam com teatro. Teatro é a grande arte do SIM. De seguir pra lá. Não há lá, lá. Fim? Reorganiza tudo outra vez, ensaios, encontros, atores, personagens, roupas nas gavetas, comidas na geladeira. Cachês. Individualidades. Enfim, recebemos um banho de esperança, amor, carinho e trabalho, não há outro caminho senão o trabalho. Recebemos, na nossa sede, Tiche Vianna e Ésio Magalhães. Sim, tudo é possível. Sim, a arte insiste. Sim, teatro se faz em coletivo. Sim, não temos outro caminho. Momento de afirmação, sem desistir da formação. E então, outro ator que tinha acabado de iniciar não se deu o tempo de entender e disse não. Oh manhã dos inícios! Ainda assim a melhor coisa do mundo é a seleção natural. Então sigamos. Os melhores são os que ficam. Somos nós ainda, e tomara que pra sempre, Fernando, Ligia, Thaisa, Kelly, João, Febraro, Gabriel, Roberto, e nas bordinhas sempre presentes Thiago, Sarah, Amanda e Ana Julia. Uma linda menina entrou, nos trazendo sorrisos, seja bem-vinda Bruna, fique o tempo que quiser. A vida é a arte dos encontros, embora haja tantos desencontros pela vida.

Parei, retomei, reorganizei. Refazendo bordas. Sentindo meu corpo outra vez. Minha alma. Minhas certezas. Eu. Mulher, 30 anos, numa cidade tradicional e machista. Eu. Diretora de teatro, produtora, atriz, padeira, cozinheira, faxineira, cabeleireira, menina, dona de alguns cachorros e alguns projetos bem interessantes. Teatro se faz todos os dias, até quando se para. Depois de “Lugar Nenhum” de Neil Gaiman, passei para “A Insustentável leveza do ser” de Milan Kundera. Ser artista todos os dias. Acompanhada pela história do Grupo Galpão e pela história do Teatro de Soleil, os dias seguem, juntos, teatro de grupo. Os dias andam difíceis para os sensíveis. Só os imbecis não vêem. O problema é que a gente tem visão periférica, vê inclusive o que não queríamos ver. “E ser artista no nosso convívio, pelo inferno e céu de todo dia. Pra poesia que a gente não vive.” Fazer teatro, é viver teatro. Não há meio termo no mundo. Teatro, é muito mais que uma profissão, é uma ideologia de vida. É política. É gente. É ser humano. É liberdade. É existência. Meu desejo é que no meio disso tudo a gente faça borda. Chega de deixar o mundo escorrer por entre os dedos. Vamos fazer bem feito, de verdade, se for preciso dar uma pausa, que fique claro, é só pra amolar a faca.  Estamos em guerra!

março 09, 2018

CRIAÇÃO E CRIAR CENA – O BARROCO QUE HÁ EM MIM.

março 09, 2018
Por: Fernando Lopes Lima.


Passou um bom tempo para eu conseguir escrever novamente aqui no nosso blog. Foi difícil terminar o ano passado, assim como está difícil iniciar um novo ano. Ou ainda, está difícil se livrar do passado para ter o presente e determinar, como se fosse possível, o futuro. Não sou de futuros. Me apego aos passados e adoro os presentes. O presente tem sido nosso discurso nestes tempos, digamos, sombrios, onde desconfiamos até da nossa própria sombra. Aliás, eu gostaria de descobrir uma maneira de se viver o presente, mesmo que haja saudade para os dois lados. Saudade do que já passou e saudade do futuro. A dor do presente é quase insuportável, mas eu sou mula, soldado, guerreiro, não caio tão fácil. Gosto de me recriar no meio desse caos, se não gosto, ao menos essa é minha caverna, se houver outra realidade desconheço. Acho que o mais difícil para um artista é criar vivendo um presente tão desmerecido, parece que andamos para trás, os otimistas que me perdoem, mas o ser humano vive seu apogeu de desumanidades. E assim fica quase impossível dar ao mundo algo que podemos chamar de presente. Acho que aprendi a viver num mundo singular, onde dava pra defender a humanidade, relembrado passados e exaltando esperanças de um futuro baseado em ações positivas, de igualdade, amor, fraternidade, progresso, união, tolerância, mas tome cuidado, essas palavras hoje em dia, podem ser usadas contra você. Nesse sentido, estou enfrentando dificuldades digestivas. E não pense você, leitor, que estou fugindo do tema proposto. É exatamente de criação que estou tentando escrever. Criar é libertar-se. Criar é recriar a si próprio. Mas criar é só pra mim? Só para os meus? Só para os que entendem como eu entendo? Qual será o meu interlocutor? Para quem eu quero dizer? Quem somos nós nesses tempos barrocos do século XXI? Se Deus está me vendo, é para ele que exibo todo o meu esplendor. Só pra ele. Mas, será que ele veio? O altíssimo? Se aqui está, não quer se envolver? Tá tudo tão sujo. Eu não me envolveria se fosse eu o próprio Deus? Serei eu Deus? Quem de nós pode espectar suficientemente o outro? Até para sentar-se diante de uma obra é preciso saber viver o presente. Do contrário somos um bando de moribundos. Só pó. Cruzes. A essa altura o leitor deste blog deve estar achando que enlouqueci, que não estou no meu juízo perfeito. Sim, tem razão. A cada minuto mais fora do juízo tenho andado, do perfeito, nem se fala. Perfeito mesmo só quem já morreu. Será que já morri? Morremos todos? O que é a vida? Não desista, caro amigo leitor, estou só testando sua paciência. Criar é tentar se comunicar com algo, com alguém. É falar do homem ao homem. É virar do lado avesso. É querer mais do que se tem e dividir tudo com todos, mas como eu disse antes, nestes tempos o criador encontra grandes dificuldades. Ele ainda cria por necessidade própria, mas fica mais distante de acreditar no ouvido e nos olhos dos outros. Parece que estamos esperando Godot. Eu, em 2018, me concentrei, tive que limpar umas sujeiras, controlar os nervos, animar a alma e de presente ganhei, ganhamos, a montagem de um espetáculo com patrocínio. Nosso primeiro patrocínio. Ótimo, era o que queríamos. Vamos começar a montagem. Vamos reler o texto, adaptar e tudo vai ser melhor. Não é de doce ilusão que vivem os criadores. O homem vive de que? Quando criamos um projeto, estamos quentes, queremos aquilo mais que tudo, mandamos para o edital, passam os meses, o tempo, que tudo afrouxa, e quando sai o resultado, aquele fogo precisa ser reaceso. E você que achava que tudo era intuição, magia. Que nada, estamos nós diante do passado, no presente, no futuro. Tudo ao mesmo tempo agora. Opa, não tem desespero, foi para isso que você lutou. Arregaçamos as mangas e começamos a trabalhar. Lentos, atrasamos tudo na medida que o patrocínio também atrasou. E vem cotidiano, sai um ator, que diz que vai viver sua vida, entra outro ator, que diz que se cansou da própria sua vida. O texto é como um monumento histórico, todo objeto estético é um monumento histórico. Tudo começa a começar. Oh, manhã dos inícios! Parece que o céu que tinha ficado cinza voltou a jorrar seu azul sobre nós. Que peso é ser feliz! Mas o mundo continua uma merda, uma lama. Ótimo, parece que esse é o caminho. Falar algo para o “desmundo”. O texto chama-se “A Vida é Sonho”. O autor é um Padre que escreveu seu texto no Século XVII, Barroco, a idade é média… Pedro Calderon De La Barca nunca foi tão atual, não por simples mérito do autor, mas por desmérito da sociedade, que insiste em andar para trás. Parece que estamos avançando na criação da cena. Os atores se preparam a cada dia para o grande dia. O texto está sendo confeccionado, uma adaptação, que me atravessa, que me modifica, que me processa. É isso que chamamos de processo. Não posso pretender mudar o mundo se não estou disposto a mudar a mim mesmo antes. E estou criando. Passo a passo. Tudo se encaixa perfeitamente. Eu criei para mim uma forma de escrever dramaturgia sem que eu crie uma palavra, sou um caçador de textos alheios, faço deles o meu discurso. Chamo essa técnica de “corte e cola”. É intenso esse tipo criação, todas são, mas essa não tem forma definida. Eu conto com os deuses que tenho a minha disposição, ferramentas intelectualizantes e meus companheiros. E tudo parece um rio, hora navego por águas claras e profundas e hora por águas rasas e turvas. Devagar e urgente tudo vai virando o drama de minha criação. A dramaturgia começa a virar cena, os atores dão suas enormes contribuições. Todo dia descobrimos pedaços. Criação é isso. Deixar as coisas entrarem em contato, em relação, permitir-se sentir dor, duvidar, enfraquecer e ressurgir, para voltar à caverna e tentar convencer os outros da nova realidade, mesmo que os outros só vejam sombras, mesmo que os outros ainda não consigam distinguir as experiências. Amá-los apesar deles. A vida é sonho, tens razão, meu caro Pedro, e que sonho! E tomara, eu, que a gente nunca desperte, e que sejamos capazes de transformar o nosso sonho no que desejamos para todos. Ainda que eu te pareça esquizofrênico, público meu, leitores, amigos e artistas, nunca desistam de acreditar que embora eu tente lhes dizer algo, é responsabilidade de vocês o quanto digo. Façam um bom proveito. Deus se cria enquanto cria. Amém.


fevereiro 28, 2018

TUDO DE NOVO

fevereiro 28, 2018


Por: Amanda.

É 2018. É janeiro de novo. 12 meses de novo. Tudo começa mais uma vez. No começo de janeiro a saudade do Rio de Janeiro já batia na hora de ir embora. Dia 04 de janeiro minhas férias estavam no fim. Cheguei em casa. Em Campo Grande. As aulas do teatro voltavam dia 15. Dia 15 tudo recomeçava. E que medo isso me deu. Janeiro foi um mês de muita ansiedade, muita angústia. Eu tenho pensado muito em 2018. E um novo ano me apavora por alguns momentos. E me empolga por outros. Na primeira aula desse ano tivemos duas horas de conversa com o Fernando. Compartilhei o que me dava tanta ansiedade e angústia. Em 2017 eu vivi um ano no teatro como nenhum outro que tinha vivido. Era tudo sempre novidade. E não sabia o que esperar. 2018 me apavora por pensar que talvez eu faça mais ideia de como as coisas funcionam. Apesar de que eu não sei. Não faço ideia de como as coisas vão ser esse ano. Porque então tanto sofrimento com antecedência? É janeiro e ainda estou de férias da escola. Esse ano irei para o nono ano. É, nono ano. A escola pra mim é... eu não sei como definir a escola pra mim. Eu sei que estar com 13 anos e viver tudo isso é doloroso. No mês de janeiro minha cabeça ferveu. Janeiro me fez pensar. Janeiro me fez questionar. E janeiro já está indo embora. E com ele minhas férias. Eu volto à minha rotina. E isso me apavora. O ano inteiro está pela frente. E sair da rotina com o teatro por um mês me deu espaço pra pensar em tanta coisa. Enquanto o ano passado acontecia, eu tinha na minha cabeça que era isso. Teatro. Não tinha outra saída. Em janeiro me questionei por vezes se tinha outra saída. E tem. Temos o caminho mais fácil e o mais difícil. A questão é que ir pelo caminho mais fácil é mais difícil. Ou não? Esse foi o mês de janeiro pra mim. O mês da dúvida. De muita dúvida. A ideia de que tudo está por vir de novo me dá de presente uma nova angústia. Tudo é sempre um desafio. De desafio em desafio: batalhas diárias. Escrever um artigo por mês é um desafio. E um medo. Todos os dias são desafios. E vêm novos medos. A virada de um ano para o outro pra mim nunca foi tão significativa. Pra mim sempre parece tudo a mesma coisa. E todas as viradas foram assim. Tudo na minha cabeça ia continuar igual. E isso era confortante. Até a virada de 2017 para 2018. A ideia de que 2018 pode ser tão dolorido, difícil e angustiante como 2017 me apavora. Ou pode não ser. Pode não ser metade de tudo que eu imagino. Sempre há dúvida. Pode ser. Como pode não ser. Dois dias antes de começarem as aulas do teatro meu coração acelerou. Acelerou por algo que iria acontecer daqui a dois dias. E também por algo que ia acontecer em abril. Ou em setembro. Ou até em dezembro. Por minutos meu coração disparou por 2018. E pelas suas surpresas. E pelas aulas. E pelos processos. Pelo Bagacinho. Por tudo. O medo já faz parte de mim. Ele está aqui sempre. Desde uma aula até um processo. E ele sempre estará aqui. Em janeiro tive insônia. Primeiras vezes que tive insônia. A cabeça não para. As aulas e compromissos da semana acabaram. Ufa! Tem daqui a uma semana de novo. E passa tão rápido. Já temos mais aulas e mais compromissos de novo. O mês de janeiro me parece um processo em cena sem processo. Eu deito a cabeça no travesseiro após a aula de quarta, já pensando na próxima vez. Escrever um artigo é difícil. Pra mim é muito difícil. O artigo de janeiro me parece confuso. Mas janeiro pra mim foi toda essa angústia. Janeiro tem 31 dias. 3 sílabas. 7 letras. E passou voando. E passou lentamente. Janeiro é confuso. Foi confuso. E quando vejo, janeiro já se foi! É difícil relacionar a minha idade com a minha vida. Bem difícil. Há pouco fiz 13 anos. Em outubro. Minha idade é uma das minhas grandes questões. Por vezes, parece que esqueço dos meus apenas 13 anos. Por vezes, me parece que os outros esquecem. E por vezes eu quero ter apenas 13 anos. Estou na adolescência. E é muita cobrança querer que eu tenha real certeza de que é isso e que não tem outra saída com a minha idade. Eu já acho difícil ter que decidir com 18. Imagine, com apenas 13 anos, passar pela cabeça que não há outra saída. Que é isso. E que não tem outra escolha. Peço que lembrem com carinho dos meus vagos e queridos 13 anos. Eu estou no começo da adolescência ainda! E vivo com as costas tortas porque a responsabilidade é pesada. Eu tenho medo de não querer seguir com o teatro. E tenho medo de querer seguir com o teatro. E me parece errado não querer seguir com o teatro pro resto da vida. Há uma grande dúvida dentro de mim. Se eu quero isso. Se eu quero isso nessa idade. Se eu quero viver minha adolescência no teatro. Eu quero ter outra saída. E talvez eu escolha a outra saída. E talvez não.

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Por: Ana Júlia.

Quando ficamos muito tempo fora, é normal sentir saudades. No começo de janeiro, Ana já estava com saudades de Campo Grande, faltando um mês para ir embora. Eu não via a hora de acabar as minhas férias em Apiaí. Sentia saudades do cheiro da minha casa. Dos meus livros. De Campo Grande. Dos meus amigos. Do teatro. Da mesma forma que eu sentia muita saudade do teatro, eu não queria que as coisas começassem por medo. O começo de tudo estava cada mais próximo. Em 2018 irei para o ensino médio. Período que é conhecido pela pressão dos pais sobre qual curso você vai escolher pra vida toda. Eu não faço ideia. Não sei o que esperar daqui pra frente. Vou vivendo o que for sendo. Logo no início de janeiro, quando soube da programação do ano e de todas as suas surpresas, de todos os seus processos e dificuldades, passou pela minha cabeça "irei poupar meu sofrimento e sair do teatro". Porém, sair do teatro é o caminho mais fácil e mais difícil de se tomar. Eu sei que não vivo mais sem teatro. É o que me move. Aos 14. Mas e aos 30? Será que o combustível será o mesmo? Janeiro e suas angústias. A angústia da dúvida sobre o que eu vou fazer pra vida. Tenho apenas 14 anos. Peço que se lembrem com carinho. Eu tenho dúvida. Dúvida sobre tudo que está relacionado ao teatro. Até de mim mesma. Penso que sempre me faltará coragem para deixar tudo isso pra trás. A grande questão é: eu quero deixar tudo isso pra trás? Talvez não tenha capacidade de escolher o que eu quero pra minha vida com apenas 14 anos. Eu não quero escolher com 14 anos. Eu tenho medo de querer seguir com isso. E tenho medo de não querer seguir com isso. Esse mês descobri que faria "Pelo Amor da Colombina". Faltava uma semana e eu já estava com medo. Me pergunto pra que o sofrimento com antecedência. Eu sofro por todos os 12 meses que estão pela frente. Não só pelo amanhã. Sofro por um processo que irá acontecer em dezembro. Falando em processo, meu primeiro foi no ETECA (encontro de teatro entre crianças). Eu tinha 13 anos. Escolhi falar sobre Maria e sua relação com a guerra na Síria, e como isso afeta a vida de uma criança. Os ensaios foram tensos. Eu chorava em todos eles. Os dias passavam lentamente. Hoje penso que todos somos Maria. Cada um com seu caos interno. Meu coração dispara por entrar em cena. Meu coração disparou antes de entrar em cena. E dispara por todos os desafios que tenho que enfrentar. Vivo cada dia uma aventura diferente. Uma experiência nova. Um frio na barriga novo. Me sinto desafiada e com medo cada vez que entro no Grupo Casa. E entender que tudo começa mais uma vez me traz a angústia de Janeiro. O começo de tudo começa mais uma vez. 

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Por: nós duas.

Nós percebemos que temos as mesmas angústias. Que passamos por tudo juntas. Que estamos no mesmo barco. E isso nos deu abertura pra juntarmos nosso janeiro. Nosso janeiro e nossas angústias. As nossas angústias diárias que nos permitem ser Amanda e Ana. Viva o teatro!

Com amor,
Amanda, Ana Julia e nosso mês de janeiro.


A DOR QUE SE DEVE SENTIR

fevereiro 28, 2018
Por: Roberto Lima.


“Nós tiramos tanto de nós mesmos pra nos curarmos das coisas mais rápido que corremos o risco de chegar à falência antes dos 30...” Essa foi uma frase que me seguiu intrinsecamente... Há tanto medo de sofrer, de sentir dor, que nos sabotamos na tentativa de eliminá-las, sendo que a dor deve sim ser sentida, ela é também um dos agentes que vão movimentar teu pensamento a existir e mudar tua realidade. Quanto mais fugimos da dor, menos aprendemos, vale a pena senti-la e passar por ela entendendo quais são as marcas que te causam, e quais movimentações cria dentro de ti.  As férias acabaram-se e o ano começou, tivemos nossas primeiras reuniões para definição do primeiro semestre e as novas turmas de alunos começaram a chegar... Para minha surpresa e alegria, entre os quinze, estava o Allan!

Allan é um surdo que sonha em ser ator e decidiu embarcar em busca do seu sonho. As aulas tem sido um mistério desde então. Fernando comanda os exercícios e eu os sinalizo e participo dando um norte para o Allan, e o deixo concluir só... Todas as atividades foram concluídas! Allan tem se mostrado um ótimo descobridor de si. É perceptível o prazer que ele tem de estar ali. Temos diversas questões em debate sobre qual a melhor forma de transmitir as informações necessárias e como usá-las dentro de um grupo ouvinte, sabemos que o Allan tem um gosto peculiar pelo português, o que torna tudo incrivelmente mais gostoso de trabalhar.

As aulas com o João também me preocuparam, não sabia o que ele havia preparado e como o Allan receberia, afinal, sei que nem todos os surdos são adeptos da música, mas para meu deleite, o Allan acompanhou todos os exercícios sem muito esforço e finalizou a aula tocando violino. A limitação está na nossa cabeça! Sempre há um jeito de atingir um objetivo se a vontade é excepcional! Não me preocupo mais em como será a aula, sei que dia após dia vou me surpreender com algo, e coisas novas surgirão a partir desse encontro.

Demos início também nas leituras de “A vida é sonho”, outro local de prazer e dor que está se desenvolvendo e crescendo dentro do Coletivo. Não sei ao certo o que esperar ainda, mas sei que o desafio maior será ser de fato um ATILS (Ator Tradutor Intérprete de Libras). Nesse espetáculo a verdade vai aparecer! Atuar e interpretar ao mesmo tempo, meu sonho tendo a oportunidade de existir... As leituras têm sido lindas, sei que bons frutos vão surgir nesse semestre e espero tirar o máximo possível, deixando a dor de cada dia, para cada dia...

Quero muito finalizar esse artigo com uma poesia que me faz pensar em por que ela foi criada e o que o autor sentia enquanto a escreveu...

”Ainda que eu esteja fraco, nulo, sem maneiras de me reerguer das trevas, todavia estarei salvo, se ainda atuar... Ainda que eu esteja trancado no escuro, onde os olhos não são importantes, nem existem... mesmo assim estarei salvo, se ainda puder interpretar... Ainda que eu esteja mofino, inerte, sem maneiras de me expressar, desta mesma forma estarei salvo, se ainda puder imaginar... Ainda que os sentidos me abandonem, e eu não saiba mais quem sou – ou o que sou... Todavia continuarei a salvo se puder me reinventar... Mas se querem que me desfaça, que eu morra nas areias inescrutáveis do tempo, basta apenas duvidar que a entrega verdadeira a arte milenar do teatro salva e pronto! Deixarei o nada a ninguém...” Fora daqui é a morte!


TUDO É A PRODUÇÃO DO NADA

fevereiro 28, 2018
Por: Vini Willyan.


Entrego-me. Aliás, tudo o que tenho feito é me entregar. Como amigo, filho e amante. Dois mil e dezoito chegou e eu quero me jogar.

Há meses, a lógica era outra. Quanto mais contido melhor. Engravatado, em pé. Os olhos correm observando a todos enquanto o corpo fica imóvel. Garçons equilibram bandejas e correm enquanto o relógio, por descaso, para de girar. Tudo está no lugar. O guardanapo e a forminha do bombom. Os assentos estão contados. Ninguém entra sem apresentar o convite.  Pratos e talheres são jogados nas cubas da pia para acentuar o cansaço. 

A festa acabou. Ufa!

Me livrei da busca do “eu alinhado”. Da prisão que é ter que acertar em tudo. Agora eu erro. Erro bastante e ainda levo bronca. Eu as recebo pois, para mim, vêm de amigos. Minha vida é a realização de um plano meu, mas que me deram. Que fora escrito antes de mim, mas para mim. Escrito num tempo em que eu me via perdido. Agora os encontrei, e me encontro também.

Eu amo as pessoas do meu lado. Amo até quem não conheci. Os que acabaram de sair e aqueles que entrarão. Essa é a minha tribo. Caminham antes dos meus passos e agora finalmente nivelamos nossas andanças.

Para onde vamos?
Para onde correm os versos, as luzes, os olhares?

Estou no centro do palco segurando uma bolsa cheia de notas fiscais. Há uma luz em mim. Ela salta dos meus batimentos cardíacos e sonha em mudar o mundo. 

Existir demais é cansativo, mas não há honra sem luta. Hoje eu acordei confiante, punho cerrado. Tenho os meus e vou em frente. A peleja é dolorida e, às vezes, estou cansado.

Quinze minutos de caminhada e eu chego ao consultório da Eliza, minha analista. Falamos muito nos últimos tempos sobre Sófocles, Tirésias, Édipo e Neruda. Ela também é administradora e diz frases lindas. Não sei se Lacan as deu ou foram os mil poetas que já sentaram à sua frente. Eliza deve ser poeta. Eliza devia fazer teatro. Ao menos ela entende que: “Talvez não ser, é ser quem tu sejas ­– Neruda”. 

O poeta me intriga. Esse mês foi dele, pra mim. Em mim. 

Voltamos de viagem e começamos a reorganizar os planos, as contas, a limpeza. Consertamos o meu celular e agora posso receber ligações. É nele que me comunico com possíveis parceiros. Esclareço dúvidas e fecho novos trabalhos, mas infelizmente ainda não fechei nenhum. Será que perdi o talento pra coisa?

Me sinto hiperativo e poderia passar o dia colocando o tapete no lugar. A cada pisada ele se move.  Tapetes me aproximam do caos. Estamos todos corridos arrumando e o Samuel resolve sair. Rapaz, aperte a minha mão e leve um abraço. O meu coração honestamente te deseja leveza e amor. Há em mim também o desejo de que não te falte afeto, e que de amores você transborde.

Continuemos a arrumar... Um quarto novo, uma cama, uma tv, um guarda-roupas. Escolher a posição dos móveis é uma dança maluca. Quem me acompanha? Em que braços estou? Tudo está corrido e precisamos parar.

Minha amiga está lidando com os seus fantasmas. Há dias se sente mal e agora precisa de uma pausa. Precisa de ginástica, caminhadas e uma nova alimentação. Precisa de umas gotinhas disso e outras daquilo. De menos açucares e alimentos refinados. Pra mim não tem remédio melhor que amor e carinho. Ligia é um ser precioso e escasso no planeta. Eu a espero boa. Pra ontem, pra já, pra sempre. 

Sinto falta da mamãe. De vê-la mesmo que por um minuto durante o dia. Sinto falta do café e da comida da Renata. Dos dengos da vovó e do abraço dos primos. Eu posso visitá-los, mas a questão que fagulha em mim é: “Será que eles vêm?”
O poeta e a poesia ainda me salvam. Amenizam as dores do mundo, parece que nossa solidão se acaricia. A falta que há em mim saúda a falta que há em você.

Tenho o mundo pela frente e tudo me barra. Preciso me salvar. 

A frente vejo vir Segismundo, Clotaldo, Astolfo e Estrela. Vejo vir cabos, luzes, espelhos, mesas e paredes. Estamos todos reunidos no M.E.R.D. aguardando o Fernando iniciar o encontro. Diversas intenções saem de nossas vozes enquanto lemos. Ao menos cinco vezes seremos interrompidos por alguém que acaba de chegar. O interfone nos alerta. Chegou minha vez de ler. Um grande soco me acerta na barriga e um frio sobe a goela. Eu preciso ignorá-lo e dominar o diafragma. Enquanto eu pensava no modo que tensionaria o corpo, minha energia se foi e a voz já alcançou o final da frase. Fim da primeira leitura. Antes de chegarmos na terceira, nossas impressões se tornarão discussões a respeitos da arte, do ser, da civilização.  

O encontro acabou. Houve ganhos. Estranhamente sinto que cheguei ao nada, como se um vazio das sensações do passado se instalasse. Nada se assemelha ao que sinto agora.  Eu desejo o novo e algo me faz crer que o novo só existe onde não há nada. Amanhã nos encontraremos novamente. Estou ansioso para ver o que o nada se tornou. Em breve espero que você veja também. 

Agora preciso fazer anotações, contas e algumas ligações. Ah, e pôr o tapete no lugar. Obrigado pela companhia. 


PARTIDAS E CHEGADAS

fevereiro 28, 2018
Por: Kelly Figueiredo.


Nosso mês de Janeiro começou ainda em férias. Uma parte do Grupo estava de férias no Espírito Santo e a outra espalhada entre Campo Grande, Brasília e São Paulo. Já era tempo de nos juntarmos novamente. Começou com a chegada de João, logo depois Gabriel e, por fim, Samuel. A trupe estava quase completa – ainda faltava Thaisa, que infelizmente não viria ao nosso encontro. A primeira partida do ano com a trupe reunida foi para Aracruz, onde fizemos o que mais amamos fazer: teatro. Foi a nossa primeira apresentação de 2018. Tínhamos os nossos acessórios prontos para entrar em ação, era um lugar lindo. Uma pracinha quase à beira mar e muita gente reunida. Neste dia me senti como em Portugal, onde fazia apresentações em várias cidades e lugares incríveis. Entendi mais ainda que sim, é isso que quero fazer. Teatro por aí com a casa nas costas e com a galera reunida. Mas nunca podemos nos acomodar, pois sempre há algo para melhorar, sempre temos que dizer sim e sempre entender o que não entendemos, mesmo que nos custe. Partimos de volta para “nossa casa” em Vila Velha.  Saí de Aracruz com a sensação de que a minha vida é isso – estar em cena seja onde for e como for – isso é o que me move.

Porque a gente gosta da estrada, partimos novamente, desta vez para Búzios. Chegamos cheios de vontade, de euforia, de querer conhecer. Conhecemos e nos encantamos, parecia que nunca iríamos embora dali. Mas iríamos, e então curtimos tudo o que podíamos até o dia da partida. Tínhamos que passar pelo Rio de Janeiro. Passamos e ficamos. Um dia no qual aproveitamos cada minuto na Cidade Maravilhosa. Aproveitamos até os desentendimentos. 

Partimos com destino à São Paulo. Chegamos na selva de pedra. Cidade em que de alguma forma nos sentimos acolhidos. Fizemos um belo passeio no Itaú Cultural onde nos encontramos com Mayra. Para nossa felicidade, ganhamos vários livros interessantíssimos que, com certeza, nos trarão mais conhecimento, ou a certeza dos nossos pensamentos. Tomamos estrada rumo à nossa casa, com um gostinho de que em breve voltaríamos a São Paulo.

Chegamos na nossa cidade, na nossa casa, já prontos para encarar nossa segunda apresentação do ano, agora no nosso espaço, com nosso público de sempre. Apresentamos. Foi dia de matar a saudade dos velhos e novos amigos. No dia seguinte, folga e no próximo uma reunião para os nossos passos de 2018.

Nossa reunião foi interessante, mas marcada pela partida de Samuel.  Agora já não somos mais três mosqueteiros pensando em cenário, adereço, figurino e organização das coisas. Infelizmente agora somos apenas dois. Uma partida que me deixou muito triste e abalada. A vida segue, não podemos deixar nos abalar por muito tempo, temos muito que fazer e realizar, e assim nossos dias vão acontecendo. E aconteceu a chegada de Bruna para fazer parte do elenco da nossa nova peça A vida é Sonho.  

Aprendi nestes 3 anos e nesta viagem que com raça, vontade e determinação é possível fazer muito, mesmo que os nossos recursos sejam escassos e as condições por vezes estejam longe de serem ideais. Aprendi também que nosso modus operandi é marcado pela paixão, pelo amor e pelo desejo de transformação. Tento sempre me apegar às coisas bonitas e boas que nos acontecem, pois isso, de alguma forma, é uma maneira de organizar o meu caos. Confesso que me apego muito facilmente e rapidamente a pessoas, projetos e aventuras.

Aprendi, também, que na nossa Casa existem milhões de histórias e memórias para serem contadas. Na nossa Casa existe música, poesia e muito amor por todos os que ali estão. 

Observando melhor estes anos e o tempo que estou com o Grupo, arrisco a dizer que apesar de tudo que já aconteceu, das distâncias existentes e de todos que passaram, construímos coisas bonitas, que me fazem entender cada vez mais que o mais importante é esse nosso modus operandi, e que as partidas e chegadas fazem parte.



O PESO DO MUNDO PRESSIONA AS MINHAS (as nossas) COSTELAS

fevereiro 28, 2018
Por: Febraro de Oliveira.
(sexta, dois de fevereiro em dois mil e dezoito, 14h:36min)




Esse artigo é quase uma carta. É um segredo secreto universal e intransferível. O que escrevo é apenas seu. E meu. Este é um bom ponto para começarmos.

Quando nasci, eu já não era eu. Meu corpo, minha “essência”, minha alma, meu qualquer coisa, já não era meu, era seu. Agora é mais óbvio: em um grupo de teatro, em um grupo, a angústia individual e egoísta serve para pouca coisa – ou nada. Nada. Eu luto contra isso todos os dias. 

Eu me chamo Vinícius Febraro de Oliveira. E foi aí que começou o problema. Quando eu era criança, meus pais me falaram que o nome Vinícius vinha de Vinicius de Moraes, chorei tanto neste dia que minha mãe teve que mentir. Isso já explica muita coisa, grande companheiro. 

Agora sobre esse mês que se passou:

Janeiro. Morri em Janeiro. Agora tenho que nascer, mas como se faz um parto se o mundo pressiona o útero? Este é um bom ponto para começarmos. Já preferi andar sozinho. Hoje é impossível andar, ou ser, sozinho. E digo hoje porque não vivi o passado da minha vida. Antes de existir, eu era uma célula, um átomo, um pedregulho, qualquer coisa que o universo quis manter. Tenho os meus segredos e eles me guardam a solidão, mas caio na minha ratoeira: quando o espectador vê a obra com olhos de ver, ele vê o artista nu e sem segredos? Eu sou honesto com o espectador e comigo? A solidão do artista e do espectador, quando se encontram, muda o mundo? Continuarei sem saber. Continuarei caminhando com você. Seguimos.

Tenho dezenove anos, já me casei. Estou agora em meu segundo casamento. Os dois em um grupo de teatro, os dois uma grande imersão, os dois um grande desespero, os dois um grande amor, os dois um grande oceano sem começo nem fim. Se casar em um grupo de teatro. Deve existir dor maior que a de estar casado em um grupo de teatro, deve existir solidão maior, mundo maior, medo maior, mas não conheço. Ainda. 

O que acontece quando um casamento acaba em um grupo de teatro? Pelo que notei, ele não acaba. Você continua vivendo vinte e quatro horas com essa pessoa. A convivência cotidiana continua. O amor, admiração, respeito e carinho também. Ou deveria. Quando meu primeiro casamento acabou, eu pensei que fosse morrer. Agora até tiro risada disso. A vida continua e, pelo que parece, o amor vive na porta ao lado.

A maldade sempre me assustou. Tudo vazio de nós. Foi criado um pequeno rebu. Este mês vi dois grandes amigos, amores, companheiros me maltratando, sendo malvados. Somos jovens e só sabemos nos defender e atacar. A internet nos permitiu esquecer que nos amamos.  Quando li as mensagens chorei, tive febre e dor de garganta. Mas não se preocupe grande companheiro, essa dor é eterna e nós nos salvamos. Ainda choro. O amor é uma coisa mais profunda que isso. E eu os amo.

Este mês meu primeiro marido, Samuel, foi embora do grupo. Parece que agora o casamento acabou. Parece que só assim acaba um casamento em um grupo de teatro. Tenha uma ótima vida. Adeus, amor, adeus. 

Caminho pelas garrafas, bitucas, mortes, crianças, medo, viagens e contas. Nesse caos, encontrei o amor. Me casei pela segunda vez. E parece que o grande amor estava na porta ao lado. Como me disseram antes. Embaixo do nariz de palhaço, há um coração pulsando. Que não seja imortal, posto que é chama. Mas que seja eterno enquanto dure. Que venham os orixás, os búzios, as cartas, as mãos, os tabloides, os evangelhos, os signos. Que sejamos felizes embora seja necessário sofrer. Isso é o teatro do mundo. 

Agora sobre a minha solidão com as crianças:

Voltaram as aulas de teatro para crianças. É difícil, cada vez mais difícil. Será que ainda levo jeito? O tempo dirá. Só o tempo. Surfaremos no caos. Ah, claro, quase esqueci: fiz um cronograma do primeiro semestre do ano. A luta do artista consciente que trilha um Lá que é desconhecido e, ao mesmo tempo, mutável. Damos um passo, e o Lá dá três passos. Dou um passo para chegar à criança que faz teatro, e ela dá outro. É impossível isso. Caminhamos para os monólogos autobiográficos e o porquê das guerras. Você está convidado. Temos muito trabalho pela frente.

É necessário ter saúde. Ás vezes nos esquecemos disso. Ontem, por exemplo, trabalhamos das sete da manhã até às dez da noite. Martelamos, limpamos, corremos, pagamos contas, fizemos cálculos, planilhas, dramaturgias, poesia, e fomos ao mercado. Isso é a rotina de um grupo de teatro. Aleatória, mutável e incompreensível para quem não o vive. Prometemos trabalhar menos em dois mil e dezoito. É, eu sei.

Os meus diretores, pais, amantes, amigos e companheiros Ligia e Fernando estão cansados. Prometo cuidar deles não dando mais trabalho, não sendo ingrato. A gratidão vem do amor e do carinho, não tenho nenhum talento, só amor e carinho. Parece que em janeiro o mundo pressionou nossas costelas sem medo. Me dedicarei aos outros onze meses com bastante amor e cuidado. Se cuidem, grandes amigos. 

Sobreviveremos, viveremos e amaremos até o último segundo, grande companheiro. Sigamos juntos para não nos esquecermos.


com amor e carinho,
seu,
Febraro.



janeiro 20, 2018

O DIA A DIA DE UMA TRUPE DE TEATRO :: DEZEMBRO/2017

janeiro 20, 2018
Por: Thaisa Contar.



Olá! Vamos a mais uma viagem no dia a dia do Grupo Casa? Dessa vez, sobre o mês de Dezembro. Último mês de 2017. Chegamos ao fim do ano. Época de se reunir com amigos e/ou familiares para esperar a chegada do novo ano. O que será que o ano de 2018 vai nos trazer? O Grupo Casa deseja que o amor perdure. Pois o amor é o que nos move e nos faz pessoas melhores.

Eu havia prometido no último post que voltaríamos com as postagens assim que voltássemos de férias, lá pro dia 10/1. Mas quem quer férias sem trabalho? Queremos escrever!

Vamos conversar sobre o mês de Dezembro?

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Começamos o mês na loucura.

Logo no primeiro dia do mês, recebemos Mandu na nossa casa de cultura para conversarmos sobre reformas. Tivemos milhares de ideias juntos. Ligia manteve o bate-papo enquanto entrávamos para a aula dos adultos de quarta-feira com Fernando. Após finalizarmos os trabalhos do dia, nos reunimos no escritório para que Ligia nos contasse o restante do bate-papo e acabamos tendo outras milhares de ideias. Como reformar o M.E.R.D.? Como reformar o Teatro Arena Bosque? Como aproveitar o material que já temos nos dois espaços? A discussão e as ideias não nos deixavam dormir. Gabriel desenhava tudo. Pensamos em paredes de paletes. Cortinas pesadas. Paredes estouradas. Como conseguir pensar o cenário do espetáculo "A Vida é Sonho" tendo que manter a casa como escola? E assim vai uma longa discussão até altas horas da noite. Acredite ou não: são nessas discussões da madrugada que saem os melhores projetos do Grupo Casa. 

Espetáculos

Para o início do mês, fechamos três apresentações e uma oficina com o SESC em Corumbá. Logo na primeira semana do ano. De 4 a 6 de Dezembro. Tá. Segunda semana. Uma apresentação por dia. De terça a quinta. Na segunda e na sexta nós ficamos dentro da Teuda. A ida e a volta da viagem. Com paradas para comer com calma e esticar as pernas. De terça a quinta não ficamos parados. Bora entrar nas Aventuras de Bagacinho, porque quem conta um ponto cria um conto! Na terça o espetáculo foi "O Patinho Feio". Na quarta apresentamos "Dom Quixote de La Mancha". E na quinta fechamos as noites de aventuras com "O Trem do Pantanal", nosso espetáculo regional. Na quinta, ainda fizemos uma "Oficina de Criação e Contação de Histórias para crianças" ministrada por Ligia e Febraro. Achávamos que não terminaríamos a tempo de ir para o espetáculo e teríamos que deixar Thaisa sozinha com as crianças. Felizmente terminamos a tempo e não queimamos a imagem do Grupo Casa e seu "saber lidar" com crianças. Depois de todo esse trabalho, Corumbá foi desbravada pelo Grupo Casa. Conhecemos a Casa do Dr. Gabi. Ficamos fascinados. Uma casa toda decorada com a história de Dom Quixote. Entrou para a lista de desejos do Grupo Casa: apresentar Dom Quixote na casa do Dr. Gabi. Conhecemos mais um pouco da cidade e um pouco da Bolívia também. Vini ficou na casa em Campo Grande cuidando de tudo. Passou a semana vendendo espetáculos para escolas para que toda a cidade tenha acesso ao teatro e às aventuras de Bagacinho. Tivemos a presença de Bruno Loiácono durante a semana para dar as aulas da turma adulta de terça à noite e da turma infantil de quarta à tarde. 

Chegamos e logo nos desdobramos para mais uma aventura no Shopping Bosque dos Ipês. Dessa vez, fizemos O Natal da Chapeuzinho Vermelho. Um espetáculo muito gostoso que adoramos fazer em qualquer ocasião. Também fizemos o Natal do Sítio do Pica Pau Amarelo para as crianças do Dhama! Fizemos sem microfone. Era um espaço pequeno e fechado. Se arrependimento matasse…   Enfim. Além dos especiais de Natal da vó da Chapeuzinho Vermelho e da Dona Benta, também nos desdobramos para apresentarmos outro especial de Natal: O Quebra Nozes. Para este espetáculo contamos com todos os palhaços da trupe, assim como o último espetáculo do ano, a Retrospectiva 2017, outra loucura. Não tivemos tempo de passar nenhum dos espetáculos desse mês. As marcações foram quase todas no improviso. Na verdade, nós relembramos as marcações enquanto fazíamos a leitura do texto. Será que estamos ficando mais espertos? 

Além de nossas apresentações, tivemos diversas reuniões e conversas com o shopping. Sobre os planejamentos de mudança do espaço. Sobre a história e sobre as novidades da turma do Bagacinho. São mais de dois anos de espetáculos. Foram 117 apresentações e quase trinta mil espectadores. O Shopping Bosque dos Ipês é nosso parceiro nessa empreitada e o Teatro Arena Bosque tem se tornado uma alternativa de cultura e arte para toda a família aqui em Campo Grande/MS. As pessoas amam teatro e o teatro está sempre cheio. Ano que vem estaremos de volta com muita novidade. A Turma do Bagacinho entrou de Férias e volta no dia 14 de Janeiro!

Além do Bagacinho, o mês também contou com apresentações de duas das nossas turmas de teatro: Infantil 2 com "A Graça do Ator", espetáculo contendo quatro cenas, e Adulto 2 com "Declaração Universal do Moleque Invocado", espetáculo apresentado na forma de leitura dramatizada. Foram muitos encontros. Cada aula era um ensaio. Cada semana pedia mais de um ensaio, e nos encontramos mais de uma vez por semana para os espetáculos ficarem cada vez mais fofos. As crianças foram muito bem. Bibi interpretou a Julieta mais kid de todas. Muito amor. É o Grupo Casinha em cena. Brincando de fazer teatro. Nove crianças em cena se enfrentando e enfrentando o mundo. Caminhando juntos para um mundo melhor. Os adultos não conseguiram marcar todo o espetáculo. Ficamos nas mesmas posições sempre. Mas com improvisos nos movimentos. Foi interessante. A leitura do menino invocado ainda deve virar espetáculo. Estamos animados.

Casa

Em um dos ensaios do moleque invocado, convidamos Kim para morar na casa enquanto viajamos, passar férias na nossa casa de cultura, nesse hotel de luxo sem televisão. Ela topou. Fez até ceia de Natal com sua família. Precisávamos de alguém para cuidar de nossos cachorros. Foi difícil viajar e ter que deixar esses três pestinhas pra trás! 

Ah. Eram três. Agora são dois mais um. Esse mês os cachorros tiveram brigas pesadas. Shakespeare e Nelson não se suportam mais. Havíamos separado os dois apenas de cômodo. Shakespeare na lavanderia e Nelson no quintal. Os dois trocavam olhares de ódio e rosnavam um para o outro ainda assim. Separamos os dois de casa. Não encontramos outra solução. Mas adoramos essa. Nelson permaneceu na casa com Chaplin enquanto Shakespeare foi morar na outra casa. Descobrimos que Shakespeare é cachorro de apartamento, e agora virou uma dama que rebola e cuida da casa. A Kim agradece, pois não vai ter o desprazer de ver os dois brigando.

Kim ficou na casa de cultura cuidando de Chaplin e Nelson, enquanto Samuel ficou tomando conta de Shakespeare na casa de Ligia, Fernando e Febraro. Os dois viajaram no início do ano e tivemos que pedir ajuda para Adriana, mãe do Febraro, Lucas, irmão da Ligia, e Val, a vó dos cachorros, para que cuidassem dos três até voltarmos.

Dezembro

O mês de dezembro foi mais um daqueles. Depois de um ano de muito trabalho, o estresse toma conta. Tivemos brigas. Discussões. Sobre as atitudes e o comportamento de cada um de nós. Sobre educação. Sobre respeito. Sobre admiração. Sobre reconhecimento. Sobre terapia. Desabafo. Choramos. Nos entendemos novamente. 

Esse mês também tivemos três aniversariantes: Roberto, Gabriel e Vini. Com Roberto, jantamos, fomos ao cinema e comemos bolo depois de tudo. Com Gabriel, jantamos em São Paulo/SP, com direito a vinho e chuvinha. Com Vini, jantamos em Brejetuba/ES com bolo e vela grande.

Férias

Ih. Que férias que nada. Viajamos com as malas de todos nós e de todos os palhaços. Ligia, Fernando, Febraro, Kelly, Roberto, Vini e Gabriel. Gabriel ficou em SP e os demais partiram para o ES. Chegaram lá como Bagacinho, Bolonhesa, Carranca, Mixirica, Coringa e Espaguete. Ah! Batizamos o palhaço de Vini! Agora temos mais um palhaço pronto para se aventurar com a trupe mais querida no ano que chega! Ou antes mesmo. Espaguete fez stand-in de Berinjela em Rapunzel no fim do ano. Por enquanto Espaguete fez apenas substituição de membros da trupe, mas com muito amor e coragem!

Trabalho nas férias é pura diversão. Pra quem está tão acostumado a trabalhar, tirar só férias é muito difícil. Nessas férias, fizemos a alegria da criançada no natal da Fazenda Leogildo-ES. Foi bom demais! Pela primeira vez, a Turma do Bagacinho se apresenta fora do Mato Grosso do Sul, na estrada, sacudindo a poeira e conhecendo o Brasil. Muita emoção. Teatro na fazenda! Viva a arte em toda parte! 

Enfim: Férias 2017. Depois de tanto trabalho, partimos para o litoral. Ligia, Fernando, Febraro, Kelly, Vini, Gabriel e Roberto. Gabriel desceu em São Paulo. João foi para Brasília com sua família. Thaisa foi para Ubatuba com sua família. Samuel ficou em Campo Grande com sua família. Logo, Gabriel, João e Samuel marcaram voos para encontrarem o restante da galera em Vitória. De lá partiram para Búzios e, por fim, para São Paulo capital. E lá ficaram até o fim das férias. Thaisa escolheu voltar para Campo Grande, e não encontrar os demais em Vitória, para cuidar de nossos espaços. Agora é esperar a virada do ano e escrever artigos para o blog. Tiramos férias, mas não esquecemos de cuidar do nosso sangue: o teatro. Porque “a arte serve para produzir pensamento”.

Nas férias do Grupo Casa estivemos espalhados por muitos lugares. Cada macaco no seu galho. Mas todos nós sabemos pra onde voltar. Temos pra quem voltar. Juntos vamos voltando para Campo Grande. E fazendo teatro. Pensando teatro. Estudando teatro. Até nas férias o teatro é o quem nos move. A gente se ama e desejamos estar juntos em 2018. Que venha o futuro!

2017

2017 foi um ano de luta, de derrotas, de perdas irreparáveis, de mais golpes e muita merda no ventilador... Mas para nós foi um ano de trabalho, de algumas importantes conquistas no campo do entendimento e da construção coletiva. Foi o ano em que o Grupo Casa se fortaleceu trabalhando. Criar e manter um coletivo não é nada fácil. Depende de muito esforço, de muito sangue nos olhos e generosidade. Generosidade não é caridade. As relações são necessárias e independentes de nós. A natureza anda pra frente. Estamos indo. Um passo de cada vez, passos firmes, passos largos, mas passos do tamanho de nossas pernas. Hoje é tarde e amanhã nem existe! Até aqui nos ajudou o caos, nossa dignidade foi conquistada e seguimos com coragem. Muitos ficaram pelo caminho - "Abandonar o navio!!!" - Tudo bem, a fogueira da vaidade, da loucura, todos os dias faz sua vítima - Queremos mais, queremos chegar lá e quando não sabemos como, pulamos do barco no meio do oceano, nos colocamos à deriva - Aqui, no Grupo Casa, grupo que estamos criando todos os dias, estamos nós dando muitas oportunidades; de crescer, de viver, de fluir, de cantar, de ser mais forte, coletivamente. Nos fortalecemos para o grupo, respeitamos as individualidade do ser do bando, nunca estamos sozinhos. Bom para um, bom para todos. É difícil entender. Mas no nosso entendimento não há como ser diferente... para fazer teatro é grupo, para fazer circo é grupo, para fazer cinema é grupo, para existir é grupo. Que em 2018 saibamos entender o particular como universal. Morremos quando alguém se mata estupidamente. E que morte não é estúpida? Precisamos lutar pela vida. Aqui, não temos tempo para quem não é revolucionário. Não temos tempo para individualistas. Somos de Grupo, com o Grupo, para o Grupo. Que no próximo ano a gente se levante para abraços longos, beijos molhados e problemas de verdade. Sejamos mais, multiplicados, somados, divididos e jamais subtraídos. Coragem! Vem 2018!

É isso galera.
Um beijo e até o próximo post


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